Rachel Hansen: Better that you find this out now before you come home and find her in bed with Lars from Norway.
Tom : Who’s Lars from Norway?
Rachel Hansen : He’s some guy she met at the gym with Brad Pitt’s face and Jesus’ abs.

Dia desses eu estava com insônia. Tinha que trabalhar cedo e estava com insônia. Pra ver se pegava logo no sono, peguei um livro do Nietzsche. E aí eu comecei a ler uns trechos e vi aquela parte que fala do Eterno Retorno e olha, aquilo dali foi escrito quando ele leu o roteiro da minha vida.

De uns tempos pra cá eu tenho percebido como as situações vem se repetindo. Tudo se transformou numa peça pré-fabricada: mudam os personagens, vez ou outra até o cenário, mas a essência é a mesma. Do mesmo jeito que ‘My Fair Lady’ é uma readaptação de ‘Pigmaleão’: a essência está ali.

Você pode me dizer: ‘Ah, mas talvez essas situações sejam condicionadas por você mesmo para serem assim, repetitivas’. Talvez sim, não descarto essa possibilidade. Nietzsche é mais fatalista, talvez, e cogita um ‘demônio’ teria apresentado esse infortúnio: a repetição de fatos que aconteceram no passado, ocorrem no presente e se repetirão no futuro.

Sendo menos abstrato e voltando ao mundo real, de uns tempos pra cá eu tenho sentido isso bastante: tudo está num ciclo, num eterno-retorno. Situações se repetem, comportamentos se repetem, respostas se repetem. Chego até a evitar agir por já saber o resultado – resultado este que, na maioria das vezes, não é muito favorável ao meu time. Dou um exemplo prático perfeito: estou indo trabalhar de novo num lugar que trabalhei em 2008, fazendo a mesma coisa que fazia em 2008. Saí ontem para tomar uma cerveja com um ex-namorado de 2008. Quando conversávamos, discutimos livros que lemos em 2008.

Pode parecer besteira, mas acredite, não é. Isso influi em mim de uma maneira que você não tem idéia: logo minha cabeça, problemática como só ela, vai me dizer que ‘eu não evoluí nada nos últimos tempos’ e que tudo tem sido ‘mais do mesmo’. E daí, por mais irônico que pareça, retornamos ao começo do texto: Como Pigmaleão, a psicologia estudou um negócio chamado profecia auto-realizável (ou Efeito Pigmaleão). Seria mais ou menos isso: a realidade é apenas o que o resultado das expectativas que você cria sobre ela, numa versão mais acadêmica de ‘O Segredo’.

Daí você pensa: então você quer dizer que os resultados negativos que você alcançou nos últimos tempos, e as expectativas frustradas e situações repetitivas são decorrências do que você esperou pra você mesmo, não? Talvez sim. Eu espero que não, e aguardo furiosamente que seja apenas o fim de Saturno sob o meu signo, que me trouxe uma série de situações indesejáveis, segundo Susan Miller. Não sei se vou saber mudar pra alcançar outros resultados ou se até sei como faz pra mudar. De uma coisa eu tenho certeza: da próxima vez que estiver com insônia, vou ler Dan Brown.

Eu realmente acredito em sinais. Há pequenas mensagens diárias, escritas pela mão gigantesca de Deus ou, se você preferir, aquela-força-cósmica-que-rege-a-todzzzzzzzzz. São pequenas semelhanças, coincidências ou toques divinos que fazem com que você deixe de sair de casa na hora em que começa a chover, ou que fazem com que você escolha um caminho diferente pra voltar pra casa e encontre um velho conhecido. Você pode chamar isso de Deus, coincidência, destino, árvore-mãe-natureza-de-Avatar ou um roteiro DA VIDA escrito por J.J. Abrams ou Damon Lindelof.

A partir desse pressuposto, eu aceito esses sinais. Se um download dá erro, Deus está me avisando pra não ouvir aquele CD. Se a rua está interditada, eu devo escolher outro caminho pra voltar pra casa. Talvez você encontre alguém no caminho, talvez encontre 10 reais no chão em uma calçada.

Mas calma, eu estou perdendo o foco: vim falar exatamente do contrário. Das más interpretações dos sinais. Explico:  assim como acredito nos sinais divinos, acredito na maldade astrológica. Naquele dia em que seu horóscopo diz pra você sair com amigos e o pneu do carro fura no meio de uma avenida deserta. Quando ele te diz que é um ótimo dia pra ficar em casa e você descobre que seu paquera estava com seus amigos no barzinho ao lado. Ou quando – vide experiência pessoal – três horóscopos distintos te avisam que o seu MELHOR DIA DO ANO está chegando.

Continuo explicando: fiquei sabendo que domingo seria meu melhor dia do ano. É, assim mesmo, com a certeza de um exame de DST, recebi três e-mails que diziam ‘Olha, meu amigo, próximo domingo vai ser seu melhor dia do ano, aproveita aí, vacilão’. Logo programei um dia excelente, assistir um filme no cinema, comprar uns DVDs, talvez uma bermuda, talvez uma camiseta, se duvidar um sushi no final. E assim, lá vou eu.

O primeiro indício foi o óbvio: eu me atrasei pro filme. Pensei que dava tempo para fumar um cigarro antes da sessão e não, não dava. Entrei na sala escura, o filme já havia começado, eu me perdi e sentei no meio da multidão. Ao meu lado, uma cadeira vazia e, em seguida, um cara sozinho. Como minha vida é um roteiro adaptado de Lost, esse cara não seria um-cara-qualquer-que-eu-nunca-mais-vou-ver-na-vida: era o meu high-school-crush há meses, que estava assistindo sozinho um filme indie de animação. Deus gritava por sinais ‘YOU BELONG WITH ME’, numa versão mais alternativa de Taylor Swift, e EU NÃO PERCEBI.

Na saída do filme eu reconheci o cara, que nem olhou pra minha cara. Já puto com a ironia divina, fui comprar meus DVDs. Não encontrei o DVD que queria (‘Como assim, vi uma prateleira cheia deles há pouco tempo’, me disse uma amiga) e resolvi comprar um presente. Comprei, enfrentei fila, passei o cartão de crédito, fui embora. A melhor parte, a cereja do bolo foi que, em seguida, EU PERDI MEU CARTÃO. E lá vou eu pra toda aquela burocracia, ligar pro atendimento ao consumidor, ouvir ‘Pour Elise’ por horas, cancelar cartão, pedir cartão, esperar 20 dias úteis, etc.

Cansado e com sono, volto pra casa e ligo o computador. Vou checar meus e-mails e vejo que tenho três horóscopos novos. Em todos os casos, eles me diziam bastante enfaticamente que EU VOU CASAR NO PRÓXIMO DIA 15. Um deles até sugeriu Vegas. Há alguma piada de mau gosto nisso tudo. Já aguardo um banho de sangue de porco no meio da praça de alimentação do shopping, ou talvez um fora homérico, com direito a outdoor na Av. Mário Jorge. Não sei o que vou fazer no dia 15, mas das duas opções, devo escolher uma: ou eu paro de ler horóscopos ou paro de acreditar em sinais.

'No more Susan Miller for me'

'No more Susan Miller for me'

Tenho um problema crônico. Não é só uma mania, passa longe de uma peculiaridade e é muito mais que apenas um defeito: eu simplesmente não sei falar. E nem tem nada a ver com não querer, O verbo aí é “conseguir”. Não sei exatamente quando começou. Pelo que lembro, fui assim a vida inteira. Na minha cabeça tudo funcionava perfeitamente, era só chegar perto e perguntar se poderia brincar também. Vai ver por isso gosto tanto das MINHAS festas de aniversário. Porque é meio complicado a essa altura da vida, passar a noite sentadinha tomando coca-cola na mesa. Anos depois, descobri a cerveja. Descobri também que me declarar pr’aquele menino antes do show com umas e outras na cabeça é uma péssima ideia. Se antes não saía nada, naquela hora a dificuldade era pegar as palavras no ar e tentar montar qualquer coisa que fizesse sentido. Sim, PÉSSIMA IDEIA… Já que não encontrei o meio-termo entre a inércia e o completo desastre, resolvi me calar. Numa tiração de sarro do destino, acabei oficialmente comunicóloga e trabalho falando pra mais de 50 alunos em 06 turmas diferentes. Mas pensando bem, discorrer sobre os rumos do Marketing no mercado contemporâneo não é problema. O problema mesmo é falar que não curto quando mexem nos meus discos, o problema é falar que vou ficar com saudades quando minha roomate for passar um mês em outra cidade, o problema é falar que adoro aquele amigo, mesmo sabendo que ele tem os defeitos que mais me irritam num ser humano, o problema é falar que morro de ciúmes enrustidos daquela outra, mas no fundo (ah, nem tão fundo assim) me divirto em sua companhia como só faço na presença de poucos. O problema não é sentir, é  FALAR que eu sinto saudades, raiva, tristeza, medo, inveja e amor. O problema é FALAR.

Acontece que a coisa passa do puramente psicológico. A reação é física mesmo. Sempre que preciso exprimir qualquer coisa, a mínima que seja, a sensação é de parto. Suor frio, descidas de montanha-russa no estômago, ansiedade. O bolo de palavras vem, a preparação é feita, o “preciso dizer uma coisa” abre as alas, e… “deixa pra lá, nada não”. Até que três dias depois eu tropeço numa fenda na calçada e o mundo é injusto, Deus é um sacana porque ele colocou aquele buraco exatamente ali, só podia ser de propósito porque não sou uma boa filha, sinto saudades da minha mãe, deveria visitar mais meu pai, mas não tenho tempo, se pelo menos meus amigos fossem mais compreensivos como daquela vez… Enfim, chororô e situações de 372 anos atrás voltam com tudo. Coisa chata, né?

O caso é que explosão após explosão, o saco de frustrações e coisas-não-ditas tem que ser esvaziado. Essa é a hora onde você precisa interpretar exatamente o que eu tô querendo colocar pra fora. Exemplo: “te pago um almoço” equivale a “tô me sentindo meio sozinha, quer me fazer companhia?”, ou “ei, vi isso aqui e achei sua cara, gostou?” é o mesmo de “ai, eu realmente não sei o que seria de mim sem você”, e ainda “tá a fim de tomar um vinho e ver um filme?” traduz-se em “tô triste e caótica, me salve!!!”

Contato corporal? Nunca. Isso só depois de meses, até mesmo ANOS de convivência e muita certeza de que I’M ALOUD TO DO IT.

Acho que agora fica claro como cristal que não sou exatamente uma pessoa de atitude. Se gosto de você, não vou dar passos apressados. Não vou anunciar em outdoors nem cantar ao pé da sua janela. O mais provável é que eu te ajude a carregar sacolas, apresente minha banda preferida, pague um café e convide pra uma caminhada, devagar de preferência, por cada esquina da minha vida. Então, se você por acaso gosta de mim, saiba que vou precisar de uma mãozinha (quem sabe duas) pra que as coisas não caiam no mais quieto silêncio.

“you’re a wanker, number niiiiiiiiiiiiiiiiiine!!!”

Todo mundo tem seu dia de Bridget Jones. Dias de Bridget Jones são normais, acontecem sempre, ao menos comigo. Não é só se encher de sorvete e ouvir ‘All By Myself’. É mais normal do que você imagina: um dia você esbarra na faixa de inaguração de algum local, ou você paga um mico enorme ao vivo, na tevê. Outros dias, você acorda pra baixo, adota o ‘All By Myself’ mental e passa o dia todo pensando que sua vida se baseia numa completa má interpretação dos livros de Jane Austen e do filme ‘Bonequinha de Luxo’.

Na minha humilde opinião, diria que é até saudável. Não dá pra ser feliz o tempo todo, não dá pra acordar e ouvir God Help The Girl, sair dando pulinhos pelo dia afora, meio Debbie Reynolds cantando ‘Good Morning’ em Cantando na Chuva. A versão oposta também não é muito aconselhável: não é de bom tom adotar o metal gótico como estilo de vida e só ver o lado ruim das coisas. Além de você adquirir uma depressão em poucos meses, suas roupas seriam horríveis e você seria confundido(a) com a vocalista do Nightwish na rua, o que é até pior que uma depressão.

A minha sugestão é: quando você acordar nos dias de Bridget Jones, se permita. Na maioria das vezes, não faz nem tanto sentido assim, mas se permita. Coma incontáveis trufas, ouça Jeff Buckley no repeat do mp3 player, compre duas garrafas daquele vinho chileno Panul no Extra e assista ‘Bonequinha de Luxo’ em casa, com sua melhor amiga. Ah, e obrigatoriamente chore na parte que ela joga o gato pelo táxi.

Normalmente, essa sensação passa logo que você se permite estar na fossa. Meu lado emocional, embasado nas más interpretações já citadas, me impossibilita de dizer que ‘ó, amigão, a vida é essa bosta aí, você vai terminar sozinho e let’s face it’. Eu sempre acho que no final vai dar tudo certo. Talvez por isso eu não consiga surtar totalmente por dias a fio. E olha, na minha humilde opinião, eu acho até melhor. No final de tudo, eu sempre espero que aquele táxi pare na chuva pra me pegar. Quem sou eu pra saber de alguma coisa, gente? Vai que uma hora eu dou sorte. Vai que eu consiga até achar o gato no beco também.

who knows?

Outro dia, conversando com amigas, chegamos a conclusão que era terminantemente proibida a reutilização de músicas temas (e por música tema, pode incluir aí a música que marcou seu namorinho de adolescência até aquele carnaval de 96, que você dançou É o Tchan! de shortinho).

O problema é que, pensando melhor sobre isso, fui percebendo que algumas músicas se reciclam e surgem bruscamente na nossa cabeça (e na nossa vida) pra embalar aquele outro momento, sem nenhum aviso prévio ou tempo pra raciocinar e apertar o botão Pause do seu cérebro.

Cheguei a essa conclusão quando ouvi “Give me Love”, de George Harrisson, e lembrei de minha infância. E me vi cantando errado, dançando no banheiro, enquanto tomava banho pra ir pro colégio, na 4ª série. E poucos segundos depois, ela virou tema de um amanhecer feliz na praia, em algum dia de semana, no meio de dezembro.

E aí, no reveillon, quando 2009 finalmente acabou e eu bati a porta na cara dele, igual Ross fez com Paolo, naquele episódio de Friends em que Rachel termina com ele depois que descobre que ele cantou Phoebe, eu me flagrei fazendo uma mixtape mental, sentada na varanda da casa de desconhecidos e aquelas músicas deixaram de ser uma porção de coisas.

E há quem diga que é só uma questão de interpretação, que dependendo da análise que você dê a letra daquela música, ela vai se transformar em outra coisa, diferente ponto de vista, vida passada, que seja. E há quem diga também que é um absurdo, que é praticamente uma traição do passado com o futuro. E eu digo que tem músicas que simplesmente adormecem. E depois que acordam dessa narcolepsia, simplesmente deram um reboot. Surgem momento novo adentro sem nenhuma memória ou arranhão – tudo bem, às vezes elas vem com cicatrizes. Mas é fato que as músicas se reciclam.

Seguindo o embalo do tópico “2009 – o ano que finalmente acabou”, resolvi fazer uma pequena retrospectiva, assim como quem não quer nada. Descobri que, ok, aconteceram coisas realmente bacanas, nem tudo são nuvens negras, depois da tempestade vem a bonança, blá blá blá… Enfim, recebi o apartamento, comprei um carro novo, arrumei mais um emprego, mestrado, Bon Iver, etc.

Mas ó, Pollyannas à parte, o que mais consigo lembrar é de não ter-dinheiro-até-o-fim-do-mês desde fevereiro, morar três meses de favor num quarto com meu gato e sua caixinha de areia, arrebentar o fusca em blocos de concreto numa noite de chuva, dormir na mesma cama de uma ex-paixonite e não fazer nada além de roncar like a motosserra até de manhã, terminar o namoro, me arrepender de terminar o namoro, sofrer incontrolavelmente durante pouco mais de um mês por terminar o namoro, Max ganhando o BBB, assistir uma roomate tentando se enforcar com o fio do modem da internet e logo depois dançar “Spice Up Your Life” na sala (não sei o que foi pior), literalmente tomar na bunda depois de ser arranhada no pé por um gato preto (onde está o Zé Gotinha quando a gente precisa dele?), passar o dia dos namorados dando a notícia do falecimento trágico dum amigo de uns amigos, brigar, discutir, me desentender diplomaticamente e quase chegar às vias de fato com grande parte dos meus (irmão do meio included), ser massacrada por um bando de alunos que não gostam de NÃO TER que responder à chamada (o mundo é realmente um lugar estranho…), e, como não podia deixar de ser, o grand finale: batidas de carro envolvendo bêbados apressados, já que resolveram cair fora sem a menor demora (mas não sem antes parar pr’um xixizinho no poste).

Bom, não vou mentir que dezembro me deu uma trégua. Se o ano fosse uma tábua, digamos que parei de martelar os dedos e resolvi usar uma furadeira. Tá certo que algumas molduras ficaram meio tortas, umas estantes ainda não aguentam tantos livros assim, mas pelo menos os band-aids no final acabaram diminuindo. Prova maior disso é esse Blog (oi gente, é muito bom voltar ao normal).

Agora é oficial: 2009 terminou. Posso dizer com bastante convicção que não foi de maneira pacífica para ambas as partes: o ano foi embora da minha vida quase expulso, à base de pontapés mesmo. No final,  ao menos pra mim e as duas jovens pagãs que deveriam escrever nesse blog, 2009 era um gremlin que mostrava garrinhas, dentinho pra fora.

A sensação é típica: alguns minutos depois da queima dos fogos, aquela sensação de purificação, elevação do espírito, paz & prosperidade é logo trocada por cerveja quente, praia lotada e banheiro químico. O ‘I got a feeling / that tonight is gonna be a good night’ foi substituído por ‘Chora, me liga, implora meu beijo de novo’. E assim a gente vai começando o ano, janeiro novinho.

Falo por mim: não vou prometer muita coisa. Manter a cabeça no lugar, não pirar, não fazer o Caminho de Compostela, não virar macrobiótico. Na verdade, começo 2010 como quem entra em casa em silêncio pra não acordar ninguém. Quero só ficar quietinho, aqui no meu canto. Não sei o que esperar de um ano que vem com tantas preliminares selvagens.

E não, esse não é um post que marca o início de 2010. Esse é um post que enterra  definitivamente – e acredito que posso falar por nós três – o ano de 2009.

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