Dia desses eu estava com insônia. Tinha que trabalhar cedo e estava com insônia. Pra ver se pegava logo no sono, peguei um livro do Nietzsche. E aí eu comecei a ler uns trechos e vi aquela parte que fala do Eterno Retorno e olha, aquilo dali foi escrito quando ele leu o roteiro da minha vida.

De uns tempos pra cá eu tenho percebido como as situações vem se repetindo. Tudo se transformou numa peça pré-fabricada: mudam os personagens, vez ou outra até o cenário, mas a essência é a mesma. Do mesmo jeito que ‘My Fair Lady’ é uma readaptação de ‘Pigmaleão’: a essência está ali.

Você pode me dizer: ‘Ah, mas talvez essas situações sejam condicionadas por você mesmo para serem assim, repetitivas’. Talvez sim, não descarto essa possibilidade. Nietzsche é mais fatalista, talvez, e cogita um ‘demônio’ teria apresentado esse infortúnio: a repetição de fatos que aconteceram no passado, ocorrem no presente e se repetirão no futuro.

Sendo menos abstrato e voltando ao mundo real, de uns tempos pra cá eu tenho sentido isso bastante: tudo está num ciclo, num eterno-retorno. Situações se repetem, comportamentos se repetem, respostas se repetem. Chego até a evitar agir por já saber o resultado – resultado este que, na maioria das vezes, não é muito favorável ao meu time. Dou um exemplo prático perfeito: estou indo trabalhar de novo num lugar que trabalhei em 2008, fazendo a mesma coisa que fazia em 2008. Saí ontem para tomar uma cerveja com um ex-namorado de 2008. Quando conversávamos, discutimos livros que lemos em 2008.

Pode parecer besteira, mas acredite, não é. Isso influi em mim de uma maneira que você não tem idéia: logo minha cabeça, problemática como só ela, vai me dizer que ‘eu não evoluí nada nos últimos tempos’ e que tudo tem sido ‘mais do mesmo’. E daí, por mais irônico que pareça, retornamos ao começo do texto: Como Pigmaleão, a psicologia estudou um negócio chamado profecia auto-realizável (ou Efeito Pigmaleão). Seria mais ou menos isso: a realidade é apenas o que o resultado das expectativas que você cria sobre ela, numa versão mais acadêmica de ‘O Segredo’.

Daí você pensa: então você quer dizer que os resultados negativos que você alcançou nos últimos tempos, e as expectativas frustradas e situações repetitivas são decorrências do que você esperou pra você mesmo, não? Talvez sim. Eu espero que não, e aguardo furiosamente que seja apenas o fim de Saturno sob o meu signo, que me trouxe uma série de situações indesejáveis, segundo Susan Miller. Não sei se vou saber mudar pra alcançar outros resultados ou se até sei como faz pra mudar. De uma coisa eu tenho certeza: da próxima vez que estiver com insônia, vou ler Dan Brown.