Tenho um problema crônico. Não é só uma mania, passa longe de uma peculiaridade e é muito mais que apenas um defeito: eu simplesmente não sei falar. E nem tem nada a ver com não querer, O verbo aí é “conseguir”. Não sei exatamente quando começou. Pelo que lembro, fui assim a vida inteira. Na minha cabeça tudo funcionava perfeitamente, era só chegar perto e perguntar se poderia brincar também. Vai ver por isso gosto tanto das MINHAS festas de aniversário. Porque é meio complicado a essa altura da vida, passar a noite sentadinha tomando coca-cola na mesa. Anos depois, descobri a cerveja. Descobri também que me declarar pr’aquele menino antes do show com umas e outras na cabeça é uma péssima ideia. Se antes não saía nada, naquela hora a dificuldade era pegar as palavras no ar e tentar montar qualquer coisa que fizesse sentido. Sim, PÉSSIMA IDEIA… Já que não encontrei o meio-termo entre a inércia e o completo desastre, resolvi me calar. Numa tiração de sarro do destino, acabei oficialmente comunicóloga e trabalho falando pra mais de 50 alunos em 06 turmas diferentes. Mas pensando bem, discorrer sobre os rumos do Marketing no mercado contemporâneo não é problema. O problema mesmo é falar que não curto quando mexem nos meus discos, o problema é falar que vou ficar com saudades quando minha roomate for passar um mês em outra cidade, o problema é falar que adoro aquele amigo, mesmo sabendo que ele tem os defeitos que mais me irritam num ser humano, o problema é falar que morro de ciúmes enrustidos daquela outra, mas no fundo (ah, nem tão fundo assim) me divirto em sua companhia como só faço na presença de poucos. O problema não é sentir, é  FALAR que eu sinto saudades, raiva, tristeza, medo, inveja e amor. O problema é FALAR.

Acontece que a coisa passa do puramente psicológico. A reação é física mesmo. Sempre que preciso exprimir qualquer coisa, a mínima que seja, a sensação é de parto. Suor frio, descidas de montanha-russa no estômago, ansiedade. O bolo de palavras vem, a preparação é feita, o “preciso dizer uma coisa” abre as alas, e… “deixa pra lá, nada não”. Até que três dias depois eu tropeço numa fenda na calçada e o mundo é injusto, Deus é um sacana porque ele colocou aquele buraco exatamente ali, só podia ser de propósito porque não sou uma boa filha, sinto saudades da minha mãe, deveria visitar mais meu pai, mas não tenho tempo, se pelo menos meus amigos fossem mais compreensivos como daquela vez… Enfim, chororô e situações de 372 anos atrás voltam com tudo. Coisa chata, né?

O caso é que explosão após explosão, o saco de frustrações e coisas-não-ditas tem que ser esvaziado. Essa é a hora onde você precisa interpretar exatamente o que eu tô querendo colocar pra fora. Exemplo: “te pago um almoço” equivale a “tô me sentindo meio sozinha, quer me fazer companhia?”, ou “ei, vi isso aqui e achei sua cara, gostou?” é o mesmo de “ai, eu realmente não sei o que seria de mim sem você”, e ainda “tá a fim de tomar um vinho e ver um filme?” traduz-se em “tô triste e caótica, me salve!!!”

Contato corporal? Nunca. Isso só depois de meses, até mesmo ANOS de convivência e muita certeza de que I’M ALOUD TO DO IT.

Acho que agora fica claro como cristal que não sou exatamente uma pessoa de atitude. Se gosto de você, não vou dar passos apressados. Não vou anunciar em outdoors nem cantar ao pé da sua janela. O mais provável é que eu te ajude a carregar sacolas, apresente minha banda preferida, pague um café e convide pra uma caminhada, devagar de preferência, por cada esquina da minha vida. Então, se você por acaso gosta de mim, saiba que vou precisar de uma mãozinha (quem sabe duas) pra que as coisas não caiam no mais quieto silêncio.

“you’re a wanker, number niiiiiiiiiiiiiiiiiine!!!”